sábado, 15 de outubro de 2011

Saudade

Enquanto estais à beira mar, enfrento o caos da metrópole.
Enquanto sentes o vento arenoso e úmido, me falta água no ar.
Enquanto colocas as mãos na massa, dedilho louca pelo teclado em busca de novas palavras;
Enquanto atendes pedidos olho no olho, quem me escuta é apenas uma voz ao fone.

Mas é à noite que nosso dia se encontra.
Enquanto descansas, nada plena, sozinha em tua cama.
Procuro os resquícios do traçado do teu corpo na minha.
Enquanto passas o frio dos solitários.
Tento, em vão, me aquecer colada ao travesseiro, que ainda exala teu perfume.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Quebra-cabeças

Há quase 23 primaveras, vivo.

Sinto que, todo esse tempo, procurei montar uma imagem.
Primeiro os cantos, as bordas.
Então, revelam-se os primeiros desenhos do quadro.

Peça por peça, sobre uma mesa de vidro transparente.
Parece que encontrei a peça que faltava.
Escondida em algum canto da vida, transparente como a mesa.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Desabafo, apenas

Tenho chorado todas as noites.
Mesmo quando as lágrimas não caem.

Meus olhos não se fecham enquanto o tormento não passa.
Meia noite.
Uma, duas.
Cinco horas da manhã.
E lá estou acordada.

Mais uma vez, ao fundo
O incansável relógio a tiquetaquear.

Seis, sete horas da manhã.
O que me consome não cessa.
Apenas adormece.
Adormece para que meu corpo possa fazer o mesmo.
Para que, na noite seguinte, a tortura volte a tomar o seu lugar.

Nem mesmo os sonhos têm se atrevido a me encontrar.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A caixa

O cheiro do mofo preenche
Não é o silêncio que incomoda
É a falta de vida

No escuro
Não é a falta de luz que dói
É a falta de cores

A falta de energia
A falta do calor
A falta da música e da poesia

E somente o tic-tac ao fundo, persiste
Porque este não pára...

domingo, 14 de novembro de 2010

Jardim

Fez deste jardim seu local predileto.
Caminha por entre o verde.
Sente o doce perfume das flores.
Prova o suco dos frutos.
Perde sangue nos espinhos.

Ainda assim, continua.
Caminhando.
Sentindo.
Provando.
E perdendo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mudanças súbitas

Num momento, você crê que a maré baixou.
Mas que traiçoeiro mar é este?
Quando se dá às costas,
Esperando sentir a brisa,
É que vem a onda e te leva pra longe
Perde-se o ponto fixo à beira da praia
Aonde, inicialmente, queria chegar.

E lá se vai a terra firme
Escorrendo, feito a água do mar,
Por entre os dedos já enrugados e frios.

Volta, futuro!
Que eu ainda estou a te perseguir...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Detalhes

Úmida, a boca saliva a boca que vê. Tua. Minha. Nessa distância que equivale a um segundo que antecede o beijo.Teu. Meu. Sentindo ofegante pulsar do corpo. Ar. Intensa energia a vibrar do peito. Coração. E mesmo que os lábios não se toquem. Mesmo que não seja meu o beijo teu. O calor do quase toque. A ânsia do quase beijo.
Por agora, alimenta e atormenta.


Texto criado a partir de duas inspirações: uma mulher e uma música.